Antes de mais nada, este texto reflete a minha percepção extremamente privilegiada de gastos e economias. Não pense que estou alheia à minha posição de privilégio nesse discurso. Sinta-se à vontade para ler com um pé atrás e levar consigo apenas aquilo que faça sentido para sua realidade!
consumo e diversao sao coias diferentes
Você já se viu questionando os gastos enquanto sai com as amigas? Das compras de roupa até o servetinho inflacionado. A ideia de que você precisa estar em um ambiente social “certo” para se divertir é um absurdo. Eu, ao longo de anos, transicionei de rata de shopping para alguém que faz picnic no parque, comendo o sanduíche feito em casa. Não se deixe enganar, foi uma transição quase obrigatória no começo, quando eu tinha mais ou menos 20 anos, já que eu não tinha dinheiro para consumir absolutamente nada em um shopping. Eu acho que eventualmente eu tomei raiva da ideia que todas as pessoas ao meu redor no shopping tinham uma sacola na mão e eu não. Ao longo dos anos, por ironia ou destino, a situação mudou muito de figura. Hoje em dia eu posso consumir muitas coisas dentro de um shopping, não todas as coisas, mas muitas coisas. O engraçado é que mesmo assim, eu não frequento shopping mais. Apesar de eu hoje poder comprar, eu não sinto mais a vontade irresistível de consumir. (Fica a pergunta se o não poder é o que faz a gente desejar isso mais que qualquer outra coisa…) Dizem que há males que vêm para o bem, talvez esse tenha sido o caso. Para mim, foi um divisor de águas, o momento quando percebi que podia curtir a companhia de família, amigos e a minha própria solitude tanto em casa, num parque ou num banco de praça tanto quanto em um restaurante, numa loja ou num café. Hoje eu considero gastos com bebidas, comida e produtos de média ou baixa qualidade vendidos por um preço altíssimo em shoppings, uma extravagância desnecessária, um uso ineficiente do meu dinheiro. Ao longo dos anos, eu percebi em mim uma mudança de hábito, que apesar de dolorosa, foi extremamente positiva e útil.
Quando você vira a chata do rolê
Eu sempre fui uma entusiasta de economias, mão de vaca mesmo. Mas eu passei anos gastando desnecessariamente em momentos sociais, por vontade ou pressão social, quando eu não podia e quando podia também. Eu sempre pertenci ao grupo menos endinheirado do rolê. Você já tentou sair com gente que tem mais (bem mais) dinheiro que você? É a morte humilhante de qualquer chance de economizar. Aos 20 anos eu ainda achava que tinha que provar alguma coisa para alguém. A mudança de comportamento que eu tive que ter para chegar onde estou demorou anos, décadas. E doeu muitas vezes. Entender e aceitar que você não pode, ou não deve mesmo que possa, é difícil. Mas hoje, a necessidade incontrolável de tirar o cartão do bolso com frequência diminuiu muito.
O problema é que ao longo dessa transformação, algumas amizades se perdem. No meu caso, as amizades que não conseguem existir fora de um shopping ou restaurante, já não são mais como antes. Até porque eu mesma não me sinto mais tão confortável em lugares de alta circulação. Ao mudar ou amadurecer o seu pensamento econômico, esteja preparada para que algumas amizades não acompanhem o processo. Faz parte. Não tenham medo de ser o/a chato/a do rolê. Os amigos de verdade gostam da gente mesmo na nossa versão chata. Uma avaliação cuidadosa dos meus hábitos de gastos, me fizeram perceber, aos poucos, o quanto eu estava desperdiçando em saídas “com a galera”. Decidi então fazer uma mudança, e desde então, tenho aproveitado a companhia das minhas amigas sem sacrificar meu orçamento.
Seja uma pessoa interessante, economizar faz voce refletir sobre si mesmo
Eu percebi morando na Alemanha que eu não tinha hobbies. Aqui quem tem hobbie de ler, frequenta clube de leitura. Quem tem hobbie de andar de bicicleta, anda de bicicleta mais do que uma vez por semana. Eu percebi, estando aqui, que os meus hobbies eram baseados em consumo. Eu, até os 30 anos, nunca tinha tido um hobbie que o ponto não fosse comprar algo e deixar entulhado em algum lugar. Economizar dinheiro tornou-se mais fácil para mim ao descobrir hobbies que não exigem gastos. Pare um segundo aqui e reflita. Você tem um hobbie realmente? Se o problema for falta de dinheiro, qual seria seu hobbie se você tivesse dinheiro então? Você conseguiria ter um hobbie que ia te trazer prazer e satisfação pessoal sem acabar com a conta bancária? Saber existir no seu tempo livre sem precisar de uma bolada de dinheiro te ajuda a economizar. Mas, muito mais importante que isso, te ajuda a se tornar uma pessoa mais comedida e focada, com uma saúde mental melhor. A gente quer preencher todos as nossas falhas com coisas, já pensou em simplesmente existir nas suas limitações, sem tentar cobri-las com algo que você comprou?
Eu dizia a torto e a direito aqui que meu hobbie era andar de bicicleta. Sendo que eu saía para andar de bicicleta 15 minutos a cada duas semanas. Isso é realmente um hobbie? Os alemães me forçaram a enxergar algumas realidades sobre mim. Eu não era capaz de levar nada que fosse pessoal meu a sério. Meu tempo livre, eu passava na frente do meu telefone. O que não é errado, mas então andar de bicicleta não era meu hobbie. Percebe? Eu queria ter um hobbie que eu não gastasse muito ou não gastasse com frequência. Então eu peguei coisas que eu já fazia de forma preguiçosa e simplesmente decidi tentar fazer as mesmas coisas só que de forma séria. Aqui eu leio livros (pegos da biblioteca) e ando de bicicleta (comprada usada que demorou 7 horas pedalando pra trazer pra onde eu moro). Ninguém disse que ter um hobbie é fácil. Mas eu acredito que isso ajuda você a se conhecer melhor. Pense sobre aquilo que você gosta de fazer e faça. Pequenos passos, compre equipamento usado, teste equipamento, pegue emprestado. Se comprometa com o seu hobbie, não com o consumo que era atrelado a ele.
Seis meses depois de estar andando de bicicleta pelo menos 5 horas por semana, furou meu pneu. Eu, fruto da classe média brasileira, fui levar pra trocar na loja. A moça da loja me disse que ficaria 200 euros pra trocar. (quase 1000 reais pra trocar um pneu de bike. A hora do trabalhador aqui é cara). Foi assim que com 32 anos na cara eu aprendi a trocar um pneu de bicicleta. Porque eu não podia pagar pelo serviço. Reconheça as suas falhas e use a limitação financeira para se tornar uma pessoa capaz de lidar de forma mais efetiva com os problemas que a vida apresenta. Dinheiro resolve todos os problemas da vida de forma fácil, eu não estou negando isso. Mas na falta de dinheiro, pense se não existem outras formas de resolver o mesmo problema.
Eu me senti incompetente em ser uma pessoa adulta muitas vezes aqui na Alemanha. Como a hora do trabalho é cara, todo mundo aprende a fazer tudo sozinho desde a infância. Eu nunca aprendi a fazer tudo sozinha. Estou no processo de entender que a primeira solução para qualquer problema não precisa ser você abrir a sua carteira.
Crie limitacoes artificias, se a s reais nao existirem
Hoje, estando um pouco melhor financeiramente eu sei que eu poderia gastar com alguns luxos, se eu quisesse. Mas eu também sei o que os luxos que eu quero (tipo, automatizar a minha casa), são só isso mesmo, luxos. Essas coisas vão me dar uma dose de dopamina que vai durar 5 minutos.. menos que isso talvez. Vale a pena sacrificar a possibilidade de poder aposentar mais cedo por isso? Com algumas coisas sim, mas com a grande maioria delas, não vale a pena.
Eu noto quando estou no Brasil um comportamento muito interessante na classe média, que é com quem eu convivo. Só porque você pode fazer algo, não quer dizer que você deva. E o diminuir a obsessão com comprar / consumir coisas, é o segredo para uma vida de economia sem sofrimentos. Pense nisso como fazer uma dieta. A chance de sucesso de alguém que faz uma dieta sofrendo eternamente porque não come doce, é baixa. O segredo está em aprender a deixar de desejar tanto aquilo que você não precisa ter. Abrir mão, sofrendo o mínimo possível, de uma coisa que não é essencial. Existem várias metodologias para isso. Primeiro é preciso que você saiba o que é essencial para você. Por exemplo, o essencial para mim, é conseguir me aposentar mais cedo. então eu uso isso como parâmetro. Eu comparo o tanto que esses desejos momentâneos valem pensando que eles estão me deixando mais longe do meu sonho de aposentar mais cedo. Fica mais fácil de colocar as coisas em perspectiva se você tem alguma base de comparação.
Eu posso levar minha bicicleta para consertar na loja, e fazer a unha no salão toda semana e ter um carro. Eu posso, em tese, pagar por isso. O meu salário atual permite. Mas certamente eu não conseguiria economizar o tanto que eu economizo se eu fizesse tudo que eu poderia, me deixando mais longe de um dia poder aposentar mais cedo. Então eu escolho não fazer nenhuma dessas coisas, porque o nível de felicidade que eles me trarão é baixo demais comparado com o valor real delas.
Faça as contas de quanto você quer economizar, seus gastos mensais, potenciais emergências e leve tudo isso em consideração para decidir se você vai comprar ou consumir serviços que são menos importantes ou supérfluos para você. E lembre-se aquilo que é supérfluo para uma pessoa, pode ser importante para outra. O objetivo é você se conhecer, para que você saiba exatamente as coisas que vão te trazer uma felicidade genuína e as que não vão.
Um exemplo prático. Eu já tenho meus objetivos em números (de economia, investimento, reserva de emergência). E no meu planejamento mensal, não tem espaço para o projeto de automação da casa que eu quero fazer. Então eu descobri uma forma criativa de conseguir fazer aquilo que eu gostaria. Eu descobri que se eu responder pesquisas online, eu receberia uma renda extra então eu poderia pagar por esse projeto. Aí você vai dizer… nossa que loucura. Só usa o dinheiro do seu salário. O problema é que esse projeto de automação não é a minha prioridade número um. Mas ainda é algo que eu quero fazer, então eu achei uma forma de fazer ele acontecer sem precisar mexer em nada no meu salário. O projeto vai ter um post específico para ele para vocês acompanharem. Mas o ponto é Seja criativa. Se você não é rica, você precisa descobrir formas criativas de conseguir dinheiro. ou você pode desejar menos coisas. O ideal é tentar fazer os dois para otimizar seus ganhos e investimentos.
Priorizando a Felicidade sobre o Consumismo Desenfreado
Ao longo do tempo, percebi que a busca constante por coisas materiais estava me deixando ansiosa e infeliz. Estou tentando focar menos naquilo que eu não posso fazer porque não tenho dinheiro e mais nos meus hobbies e em como ter saúde mental sem gastar mais. Minha obsessão por economizar dinheiro não se deve ao desejo de comprar coisas novas e elegantes, mas sim ao desejo de alcançar a liberdade financeira. Crie um objetivo financeiro para você. Eu notei que refletir de forma ativa sobre o meu consumo e sobre meus objetivos me energizou muito. Porque aquilo que a minha mente não pensou ativamente parece menos importante ou impossível. Se o seu sonho for razoável, é possível alcançá-lo. Pode ser muito difícil, mas impossível provavelmente não é. Eu percebi que ajuda muito focar nos pequenos sucessos e em coisas que não são apenas dinheiro. Celebrar cada pequeno passo que eu dou na direção do meu sonho, me ajuda muito. Por exemplo, cada nova coisa que eu aprendo a fazer sozinha sem precisar pagar por um serviço. Isso me ajuda a manter um sonho que vai demorar décadas para atingir mais real para mim. Não tenha medo de sonhar. Esse é o primeiro passo para atingir seus objetivos. E lembre-se.. se você sonhar e seus planos derem errado, na pior das hipóteses, sua vida vai continuar sendo o que ela já era. Sonhar nunca vai deixar você numa situação pior do que você já estava.
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Eu tento mostrar que mesmo dentro da bolha de privilégio de onde eu vim, existe muita ansiedade sobre a vida financeira, gastos e como isso influencia na nossa saúde mental. A newsletter da Segredos de uma Mão de Vaca está repleta de dicas práticas e inspiradoras para ajudar pessoas que estão enfrentando dificuldades econômicas ou simplesmente desejam economizar dinheiro. Lembre-se, economizar não precisa ser chato ou doloroso. Vai ser no começo, sem dúvida, mas um dia vai deixar de ser. Com um pouco de criatividade e as estratégias certas, você pode transformar o ato de economizar em uma aventura emocionante. Então, o que você está esperando? Vamos começar a economizar e aproveitar a vida ao máximo
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